“As vezes a gente faz e fala coisas sem refletir. Dia desses me peguei pensando nisso, depois que mandei essa pra um amigo: “Você já teve oportunidade de observar o movimento da maré? Precisa de tempo e disposição. Mas, pra que conhecer o movimento da maré se ele não serve de nada pra você?” Hum… isso vai render um post…”
Era um dia qualquer, pela hora do almoço, quando mandei uma nota sobre observar o movimento da maré pra um novo amigo. Tão novo que ainda não sei se ele conhece o mar, tão amigo que já tivemos oportunidade de compartilhar decisões… Esse meu novo amigo deve ganhar um post em breve.
Mas fiquei pensando nas coisas ditas (que consideramos óbvias) e que falamos ao longo do dia, por considerar que todos ao nosso redor tem o mesmo nível de informação que temos, as vezes acontece o contrário: nosso interlocutor vai mandando informação como se fosse tudo óbvio. “Como você não conhece o funcionamento de uma 5D? Lógico que conhece, eu hein… esqueceu?” (e eu sabia?…)
Passei aquela manhã lembrando de pessoas que passaram pela minha vida com níveis diferentes de informação. Diferentes entre si e diferentes para mim. Mas dois momentos foram marcantes, até então: o mais marcante de todos foi no período que morei no interior do Pará. Eu, no auge da minha juventude, lá pelos 20 e poucos anos era dona do meu nariz, da minha casa e da minha informação. Como as coisas ao meu redor estavam caminhando bem, pra que eu ia me perguntar se tava todo mundo entendendo a mesma coisa? Pergunta mais besta? Onde já se viu parar pra pensar se o meu interlocutor tava entendendo o que eu dizia? Afinal, eu estava no Brasil e estava lidando com brasileiros! No mais, meus pares eram engenheiros, administradores, analistas de O&M, de RH… o máximo que poderia ter de diferença eram termos técnicos específicos de cada área… Que nada… Eu também tive a honra de conviver com pessoas nascidas e criadas na região, que o mais longe que já tinham ido era do outro lado do igarapé. Pessoas que nunca tinham ido à capital, distante 40km em linha reta… pessoas que com certeza conheciam o movimento da maré, mas não do mar e sim dos rios. Pessoas que sabiam pelo rumo do vento se a chuva das 3 da tarde ia cair ou não, pessoas que sabiam tirar a castanha-do-pará de dentro do ouriço, pois aprenderam com os macacos… mas algumas dessas pessoas não sabiam acionar a válvula de descarga do vaso sanitário – a grande bacia pregada no chão e nem mesmo o que era (e como usar) uma enceradeira para deixar o chão brilhando como espelho! Com certeza, a convivência com essas pessoas, viver naquele lugar, fez muito em mim. Entre muitas coisas, me fez olhar o outro com mais cuidado pra saber se estava, de fato, rolando uma comunicação. É. Ali eu amadureci um pouco.
Anos depois, longe de tudo isso, me vejo com estagiários, de um curso novo, na capital federal, em uma empresa de pesquisa das mais respeitadas no mundo! Foi ai o meu segundo momento marcante: uma das estagiárias só tinha o “óbvio” como expressão… tudo pra ela era “óbvio”… Tudo! Eu passava orientações de trabalho e fazia alguma pergunta de entendimento e ela era a primeira a responder: “-Ah, mas isso é obvio!” No início em fiquei chateada. Caramba, se a pessoa acha tudo tão óbvio, pra que fazer estágio? Pra que tentar aprender na prática o que era “obvio” na teoria? Por que ocupar o lugar de alguém que quer aprender??? Mas, foi ai que eu percebi, o quão obvio era a imaturidade dela, como ela precisava saber que as coisas não eram como ela acreditava… eu tentei. Comecei a mostrar os revezes das coisas, ao nosso alcance e em alguns momentos ela aproveitou e refletiu. Acabou o estágio. Perdemos o contato mas sinceramente espero que ela, que naquele momento tinha 20 e poucos anos, tenha conseguido perceber que nada é tão óbvio quanto parece.
PS: o post é antigo mas a imagem é recente. Fiz do morro da igreja Nossa Senhora de Nazaré em Saquarema/RJ, em 13.08.2015, em meio digital, com uma Canon EOS REBEL T4i usando f/6.3 1/200 98 mm ISO 100. A imagem anterior eu tinha recuperado da Internet, citada a fonte.
Republicou isso em Monica Eva – Fotografia.